domingo, 7 de outubro de 2012

Primeiro dia


Sete da manhã e ela caminha sozinha pela Rua Vergueiro. Algo intriga todos que por ela passam. Talvez seja a meia calça preta com furos discretos e o modo que o cabelo castanho e liso bate em suas costas espalhando as mechas pelo capuz do sobretudo vermelho. Ou ainda as olheiras que nada interferem no seu olhar sonhador e despreocupado que cruza com outro em uma esquina. Eles andam lado a lado em silencio, não é o primeiro encontro deles. Então a expressão serena desaparece de seu rosto e ela afirma não acreditar no amor. Ele sorri e diz que não acredita nela, apesar de saber, bem no fundo, que é o culpado por isso. Quem diria que ela iria se lembrar da frase dita por ele meses atrás? De fato, a garota tinha boa memoria.
Ele sabia que tinha que consertar isso. Não para se sentir melhor ou para não ter que lidar com os olhares de desprezo. Mas porque o coração dela tinha sido destroçado e a culpa era estritamente dele.  Então, após alguns passos, ele tenta segurar a mão dela. Tentativa falha, já que ela se desvencilha e observa as unhas pintadas de azul, fingindo não perceber que ele estava ao seu lado.
Mas a verdade é que ela só esta cansada de tudo. Principalmente de não admitir o que sentia. Ela se apoia na grade e olha para baixo, observando os carros que passam na 23 de maio. Fecha os olhos e deixa o vento bater no seu rosto. Ela sabe da gravidade do que estava acontecendo não só na sua vida como também naquele momento, mas se deu o direito de rir. Quem passa por ali jura que os dois formam o casal perfeito: o garoto bonito em silencio ao lado da garota que gargalhava sem motivos aparentes. Um é o ponto de equilíbrio do outro. Eles só precisam saber disso.
Ela coloca as mãos no bolso do sobretudo e volta a caminhar distraída. Não há perigo dele querer repetir o gesto. E lá esta ela, reprimindo seus sentimentos mais uma vez.
Ele não faz a mínima ideia do lugar para o qual ela esta indo e muito menos se lembra do que estava fazendo antes de encontra-la, só quer ter a certeza de que irá aproveitar a chance que o universo lhe deu nessa manhã de outubro. 
E em uma rajada de vento ela acerta o cabelo, enquanto algo entra no olho dele. Ela assopra e os dois riem de como estão sendo bobos. 
Esperando para atravessar, ele observa a mão dela balançando inquietamente. E então realmente se dá conta do tamanho do erro que havia cometido. Ele sentia falta das mensagens de madrugada, do modo que os olhos dela fechavam na luz do sol, de dobrar as unhas dela e se preocupar se ela realmente estava bem. Ela era única, ela valia todos os esforços. Por que diabos ele a tinha deixado partir?
Enquanto atravessavam, ele segurou a mão dela. Eles sorriram um para outro, nenhuma palavra era necessária. Porque ali, bem no meio da avenida, eles chegaram ao seu destino.

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